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Moda e clima. O que podemos aprender?

Thursday, September 9, 2021
Como pode a indústria contribuir para a mudança climática?
Moda e clima. O que podemos aprender?

Depois de semanas de fogos florestais, ondas de calor extremas e inundações um pouco por todo o mundo, os cientistas climáticos emitiram um alerta sobre o rápido aumento das temperaturas globais. A conclusão é simples e preocupante: o planeta está a caminhar rapidamente para níveis catastróficos de aquecimento, que são "inequivocamente" causados pela atividade humana.

Neste quadro global, algumas mudanças já são irreversíveis; e a menos que as coisas melhorem rapidamente, o cenário será cada vez pior. Segundo avança o novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o grupo de pesquisa do climática das Nações Unidas, com o melhor cenário em cima da mesa, espera-se que as temperaturas globais continuem a subir pelo menos até meados deste século.

O relatório concluiu que a atividade humana já aqueceu o planeta em cerca de 1,1 graus Celsius desde o final do século XIX e a taxa de aquecimento acelerou nas últimas décadas. As metas acordadas internacionalmente visam limitar o aumento global das temperaturas a não mais que 1,5 grau para evitar os piores efeitos. Mas, sem uma ação drástica e transformadora para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, esse nível provavelmente será ultrapassado nos próximos 20 anos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou as descobertas de “um código vermelho para a humanidade”. Mas o que pode a indústria da moda fazer a este respeito?

O relatório aumenta a pressão sobre a indústria da moda e demonstra um progresso lento no combate ao impacto ambiental. Os especialistas avançam que indústria da moda – como um todo - é responsável por 4 a 10 por cento das emissões globais de gases de efeito de estufa. No início deste ano, o Índice de Sustentabilidade da BoF concluiu que as ações das empresas deste setor estão atrasadas nos compromissos. “Muitas grandes empresas fazem parecer que a indústria da moda está a assumir responsabilidades, gastando grandes quantias em campanhas que se retratam como 'sustentáveis', 'éticas', 'verdes', 'neutras para o clima' ou 'justas'. Mas sejamos claros: Isso quase nunca é nada além de puro marketing”. As palavras são de Greta Thunberg, a ativista climática que recentemente foi capa da Vogue Escandinávia.

O relatório do IPCC define o cenário para uma grande reunião de líderes mundiais que decorrerá em Glasgow em novembro. A Conferência das Partes (The Conference of Parts), ou COP26, será uma oportunidade decisiva criar medidas de ação concretas.
O que devemos reter sobre este encontro:

1.    Carta da Indústria da Moda para a Ação Climática
Os principais pontos da agenda da COP26 incluem a eliminação gradual do carvão, a proteção e restauração dos ecossistemas naturais e planos de financiamento para atingir as emissões líquidas zero. Naturalmente, as iniciativas globais para enfrentar esses desafios vão inevitavelmente ter repercussões na indústria da moda, que tem vindo a enfrentes um crescente escrutínio. Entre os eventos a decorrer durante a conferência, a Carta da Indústria da Moda para Ação Climática, apoiada pelas Nações Unidas, será uma oportunidade de discussão sobre o aumento da ambição e dos objetivos climáticos. A designer Stella McCartney, que no início deste ano disse aos líderes mundiais no G7 que a indústria precisa de regulamentação e incentivos mais fortes para reduzir seu impacto ambiental, falará num evento paralelo patrocinado pelo The New York Times.

Procurar o envolvimento com criadores de políticas e partes interessadas em todos os setores tornar-se-á cada vez mais importante para a indústria. As políticas governamentais nos mercados de consumo e nos centros de produção serão vitais para remover barreiras, como subsídios para combustíveis fósseis e infraestruturas limitadas para fontes de energia renováveis, que tornam mais difícil a descarbonização da cadeia de abastecimento da indústria.

2. Defina metas de emissões mais ambiciosas
O relatório do IPCC deixa claro que a janela para evitar níveis perigosos de aquecimento global é muito estreita. As grandes empresas da moda estão a definir metas cada vez mais ambiciosas para reduzir as emissões, embora o progresso seja lento.
A maior parte do impacto da indústria ocorre na cadeia de abastecimento, onde as marcas têm menos controlo direto.
A Science-Based Targets Initiative, que orienta as empresas no estabelecimento de metas de emissões, exigirá que as metas se alinhem aos esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 grau a partir do próximo ano. Cumprir as metas de emissões mais ambiciosas sairá caro e exigirá uma maior colaboração entre marcas e fornecedores para afastar a cadeia de abascimento dos combustíveis fósseis.

Investir em mudanças transformadoras
“Não há como contornar o facto de que a transição para uma cadeia de abastecimento de baixo carbono exigirá investimentos e as marcas historicamente não estão dispostas a pagar por isso”, diz Michael Sadowski, um consultor de sustentabilidade independente, ao BoF. Mas a necessidade de mais gastos não se limita às reduções de emissões.

Lidar com o impacto da indústria exigirá milhões de dólares para desenvolver e dimensionar novas tecnologias e novos modelos de negócios. A boa notícia é que existe uma lista crescente de soluções promissoras que vão desde modelos regenerativos para agricultura, a inovações de reciclagem e biomateriais, aluguer de peças de roupa, revenda, que trazem a perspectiva de um setor menos focado nas novidades e tendências. Para tal, as empresas precisam de começar a comprometer-se com projetos-piloto e coleções de cápsulas e a trabalhar com outros players dentro e fora da indústria, de forma a construir mercados e infraestruturas potenciadores de mudança.

Fonte: APICCAPS

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